Uma equipe de pesquisadores, composta por cientistas brasileiros e finlandeses, fez um impressionante mapeamento de uma extensa rede de estradas que totaliza cerca de 350 km, construídas por grupos indígenas no Acre, muito antes da chegada dos europeus. O estudo, publicado no periódico Antiquity, destaca a complexidade e a importância dessas vias na conexão entre diferentes monumentos e localidades.

Estruturas e Funções das Estradas

As estradas pré-colombianas, que foram cuidadosamente planejadas, parecem ter desempenhado diversas funções ao longo do tempo. Elas uniam monumentos misteriosos da região e estabeleciam ligações entre as povoações e os principais rios. Alceu Ranzi, coautor do estudo e pesquisador do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre, ressaltou a importância das tecnologias modernas na descoberta dessas vias.

A pesquisa envolveu a utilização de imagens de satélite e validações em campo, abrangendo uma área de 135 mil quilômetros quadrados no Acre. Essa região tem revelado geóglifos, grandes desenhos no solo, que são caracterizados por valetas que delimitam espaços que podem ter sido utilizados como terreiros cerimoniais pela população indígena antiga.

Interpretações Arqueológicas

Os geóglifos encontrados pela equipe indicam que as áreas poderiam ter sido utilizadas para reuniões cerimoniais, devido à escassez de artefatos domésticos nas proximidades. Ranzi sugere que os antigos habitantes da região poderiam ter aproveitado ciclos de crescimento e morte dos bambuzais para abrir espaço e delimitar essas áreas cerimoniais.

O estudo revela que essa tradição pode ter começado séculos antes da Era Cristã, até por volta do ano 1000 d.C., sendo associada à civilização Aquiry, nome que remete ao idioma indígena apurinã e ao rio Acre.

Características das Estradas

No mapeamento, os pesquisadores identificaram um predomínio de estradas largas, com mais de 15 metros de largura, totalizando 634 casos, em comparação com apenas 321 estradas mais estreitas. A maioria dessas vias segue trajetos retos e muitas vezes se alinha aos pontos cardeais, indicando uma possível compreensão astronômica por parte dos antigos habitantes.

Além disso, a pesquisa constatou que a maioria das estradas tem menos de 500 metros de extensão, embora algumas alcancem até 5,5 km. Um interessante sistema de estradas interconectadas poderia ligar povoações a até 30 km de distância.

Relação com a Natureza

A análise também revelou que aproximadamente 40% das estradas levam em direção aos rios, com destaque para uma área em Boca do Acre, onde 12 estradas convergem. Outros 10% terminam em geóglifos ou grandes estruturas de terra. Um aspecto intrigante é que quase metade das estradas não possui um destino claro, podendo ter levado a áreas de cultivo ou locais estratégicos na floresta.

Ranzi conclui que, apesar do desmatamento revelar muitas estruturas, a tecnologia Lidar, que utiliza laser para penetrar a vegetação, poderá trazer à tona novas informações sobre a rede de monumentos e caminhos antigos, revelando conexões ainda mais significativas entre os geóglifos e as estradas.