A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está na vanguarda da inovação ao desenvolver carne em laboratório. Essa técnica pioneira não envolve o sacrifício de animais e se propõe a mitigar os impactos ambientais associados à pecuária, como o desmatamento e a emissão de gases que agravam o efeito estufa.

Desenvolvimento da Carne Cultivada

A iniciativa é liderada pela Embrapa Suínos e Aves, localizada em Concórdia (SC), que já criou protótipos de filés de peito de frango, em colaboração com o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília. O laboratório também produziu amostras de outros alimentos como filé de salmão, caviar e anéis de lula.

A Técnica de Cultivo

A técnica envolve a multiplicação de células retiradas de animais vivos por meio de uma biópsia. Essa amostra é cultivada em um ambiente in vitro, rico em oxigênio e nutrientes essenciais, como glicose e aminoácidos, para permitir que as células se multipliquem.

Engenharia de Tecidos

A produção de carne cultivada utiliza princípios da engenharia de tecidos e da biotecnologia celular, que são também aplicados na medicina regenerativa. A veterinária Naiara Milagres Augusto da Silva, do Cenargen, explica que é possível isolar diferentes células do tecido muscular e focar na multiplicação daquelas desejadas.

Ancoragem Física e Estruturas Biomiméticas

Para o crescimento do tecido muscular, é necessária uma superfície que imite a matriz extracelular dos sistemas biológicos naturais. Estruturas biomiméticas, como scaffolds fibrosos e microcarreadores esféricos, favorecem a orientação e a expansão celular, aumentando a área de crescimento e contribuindo para a produção em larga escala.

Biomateriais e Películas Comestíveis

O trabalho do LNANO também foca no desenvolvimento de biomateriais a partir de proteínas vegetais, que servem como suporte para a adesão e multiplicação das células da carne cultivada. Um dos produtos em desenvolvimento é uma película comestível que funcionará como invólucro para embutidos, como linguiças, produzidos pela técnica de carne cultivada.

Regulamentação e Futuro

A pesquisa em carne cultivada tem ganhado força no Brasil, com grandes agroindústrias e startups investindo no setor. A Anvisa publicou, em 2023, um marco regulatório para a carne cultivada, alinhando o Brasil às práticas de outros países que já aprovaram a comercialização desse tipo de produto. Com a finalização dos protótipos, a Embrapa espera firmar parcerias para a produção industrial e comercialização.