O Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) decidiu, nesta terça-feira (23), renovar uma cota de importação sem cobrança de impostos para veículos elétricos que chegam ao Brasil de forma desmontada ou semimontada. A medida reacendeu o debate sobre o avanço das marcas chinesas no país e provocou reação imediata da indústria automotiva nacional.

Entenda os formatos de importação

Para compreender a decisão, é preciso diferenciar os três modelos de importação de automóveis. Os veículos classificados como CKD (Completely Knocked Down) chegam totalmente desmontados e são montados em território brasileiro. Já os SKD (Semi Knocked Down) entram no país de forma semimontada, praticamente prontos. Por fim, os CBU (Completely Built Up) são os carros que desembarcam já totalmente montados, prontos para a venda.

A produção de veículos semimontados costuma ser o primeiro passo de quem decide investir em uma fábrica no Brasil. O formato SKD se destaca justamente por exigir um índice menor de mão de obra local, já que os automóveis chegam quase finalizados. Entre as vantagens apontadas para essa estratégia estão o aproveitamento da mão de obra estrangeira e o uso de tecnologias específicas voltadas a componentes que ainda não têm produção nacional.

A polêmica com a indústria

A renovação da cota gerou descontentamento entre as montadoras instaladas no país. Em nota, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) classificou a medida como "contrária aos interesses dos trabalhadores, das fabricantes nacionais de veículos e das empresas brasileiras de autopeças". A entidade afirmou ainda que a decisão foi tomada sem consulta ao setor produtivo e que altera de forma intempestiva uma política definida pelo próprio Governo Federal.

Segundo a associação, as cotas para importação de kits de veículos elétricos haviam se encerrado em fevereiro de 2026, conforme acordado no ano anterior após longo debate com o setor. A Anfavea argumenta que prolongar benefícios criados como temporários coloca em xeque a confiança de empresas que ajustaram seus planos contando com as regras pactuadas, atingindo trabalhadores espalhados por nove estados do país.

O que dizem os números

A entidade lembra que a eletrificação avançou rapidamente nos últimos anos: novas marcas chegaram, a oferta cresceu e os emplacamentos de eletrificados importados subiram 214% entre 2023 e 2025. Em resposta aos estímulos, as fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, destinados a novas formas de propulsão, pesquisa, engenharia, modernização industrial e ampliação da cadeia de fornecedores.

Os resultados também aparecem na produção nacional. Em 2025, os veículos eletrificados fabricados no Brasil responderam por 25,9% das vendas do segmento. No acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos produzidos no país cresceu 57% na comparação com o mesmo período de 2025. Para a Anfavea, o desafio agora deixou de ser acelerar a entrada dos elétricos e passou a ser garantir que essa transformação gere mais produção local, desenvolvimento tecnológico e agregação de valor no Brasil.

A posição do governo

Do outro lado, o governo informou que a importação de carros já montados não terá qualquer tipo de cota. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços defendeu que a medida converge com outras iniciativas voltadas à renovação da frota e ao fortalecimento da inovação e da descarbonização no ecossistema automotivo brasileiro, com veículos mais sustentáveis que ajudam a reduzir as emissões de CO2.

A Anfavea afirmou que continuará defendendo a descarbonização, a concorrência e a ampliação da oferta ao consumidor. Para a entidade, o que está em jogo não é a transição energética, já em curso e irreversível, mas sim qual modelo de desenvolvimento o país pretende incentivar para a nova mobilidade e quanto espaço será reservado à produção nacional nesse processo.