A Organização das Nações Unidas (ONU) recentemente alertou sobre a gravidade do fenômeno climático El Niño, que pode impactar intensamente as condições climáticas em 2026. Instituições de previsão climática já vinham discutindo essa possibilidade, dada a tendência do fenômeno de causar eventos climáticos extremos que afetam diretamente a agropecuária.
Impactos previstos
Uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), informa que a probabilidade de El Niño se manifestar é superior a 80% ao longo do segundo semestre de 2026, podendo se estender até o início de 2027.
Lucas Oliva, analista da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg), analisa os impactos que o fenômeno pode trazer para as principais cadeias agrícolas do estado, considerando o aumento das temperaturas, chuvas irregulares e seca extrema.
Desafios na cultura do café
No cultivo do café, um dos principais produtos de Minas Gerais, os efeitos adversos podem começar já na fase de florada. A primeira chuva após um período de seca é crucial, pois se for irregular, pode resultar em colheitas desiguais, afetando a qualidade do café. Grãos verdes, maduros e passados podem ser colhidos juntos, comprometendo o valor final do produto.
A coleta de café, que representa entre 40% e 50% dos custos, torna-se ainda mais complicada quando a colheita não é feita apenas com grãos maduros, mas também com os que não estão prontos, impactando a eficiência do trabalho e a qualidade do produto.
Problemas na soja e pecuária
Para a soja, a falta de chuvas pode atrasar o plantio, afetando o calendário da segunda safra de milho. O produtor depende de chuvas sequenciais para a germinação das sementes. Se a umidade não for adequada, a semente pode não germinar, levando a perdas significativas na produção.
Na pecuária, o calor extremo pode reduzir a ingestão de alimento dos animais, impactando o ganho de peso do gado e a produção de leite. Além disso, o estresse térmico pode aumentar a vulnerabilidade dos animais a doenças e afetar a saúde geral do rebanho. A qualidade das forrageiras também poderá ser comprometida, reduzindo a alimentação disponível.
Medidas de prevenção e adaptação
Lucas Oliva sugere diversas práticas que os produtores podem adotar para mitigar os efeitos do El Niño, como a conservação de água através de reservatórios e técnicas de cobertura do solo. O uso de plantas de cobertura e a técnica de mulching ajudam a preservar a umidade e a qualidade do solo.
A irrigação por gotejo é uma alternativa para fornecer a quantidade exata de água necessária para as plantas, embora possa aumentar os custos de produção. A construção de barraginhas e a preparação do solo para melhor infiltração também são recomendadas para armazenar água da chuva.
Cuidados na pecuária e planejamento
Na pecuária, é essencial aumentar as áreas sombreadas e garantir que os animais tenham acesso a água potável. O manejo deve ser realizado em horários mais frescos para evitar o estresse térmico. O planejamento da produção e do armazenamento de alimentos volumosos é fundamental para enfrentar períodos de seca.
Preparações antecipadas, como a compra estratégica de insumos e a manutenção do calendário de vacinação, são essenciais para minimizar os impactos do fenômeno. A implementação dessas práticas pode ser a chave para que os produtores enfrentem melhor os desafios impostos pelo El Niño e mantenham a saúde de suas lavouras e rebanhos.
