A arquiteta Tatiana Fló Cosenza, de 43 anos, vivenciou esgotamento extremo em sua trajetória profissional. Há mais de duas décadas, desmaiou ao volante, e mais recentemente, durante a pandemia, foi forçada a participar de uma reunião presencial mesmo estando com Covid-19. Após essa última experiência, decidiu pedir demissão.

Desafios no ambiente de trabalho

Tatiana relata que a pressão no trabalho era tão intensa que seu marido a via como uma estranha, devido ao nível de exaustão que enfrentava. Mãe e responsável pelas tarefas domésticas, ela agora gerencia seu próprio escritório com duas sócias, estabelecendo limites mais saudáveis. No entanto, a sobrecarga persiste, com dias em que precisa gerenciar conversas com até 57 pessoas diferentes.

Dados do Ministério da Previdência Social revelam que, em 2025, as mulheres representaram 63% dos casos de afastamento por problemas de saúde mental. Segundo a psicóloga Patrícia Ansarah, as mulheres não apenas enfrentam a carga dos afazeres domésticos, mas também precisam trabalhar mais para alcançar o reconhecimento de seus colegas homens, geralmente recebendo menos por isso.

Microviolências e a jornada dupla

Patrícia destaca que as mulheres frequentemente lidam com microviolências, como comentários sobre aparência e apropriação de ideias. Além disso, a exigência de disponibilidade total no trabalho, mesmo em momentos que precisam cuidar de filhos ou parentes, intensifica a pressão. O homem que sai para buscar os filhos é visto como um herói, enquanto a mulher é penalizada se não participar de reuniões.

A realidade é que a sobrecarga emocional das mulheres no trabalho é invisibilizada, e muitas se sentem incapazes de reclamar. Mesmo com maior nível de escolaridade, as brasileiras ainda recebem quase 20% a menos do que os homens, conforme dados do IBGE de 2022.

Perspectivas de mudança

Um estudo da Deloitte, publicado em 2023, revelou que apenas 23,3% dos assentos em conselhos administrativos são ocupados por mulheres, e apenas 6% são CEOs. Além disso, uma pesquisa da Todas Group em parceria com a Nexus apontou que oito em cada dez mulheres em cargos de liderança enfrentam barreiras de gênero que dificultam suas promoções.

Com o reconhecimento das dificuldades, muitas mulheres optam por movimentações laterais em suas carreiras, como observa Ana Paula Vitelli, autora do livro "A Mulher (In)visível". Ela afirma que, apesar do progresso na discussão sobre a presença feminina no mercado de trabalho, ainda há muito a ser feito. Muitas mulheres desistem de buscar promoções devido à carga pesada que precisam equilibrar entre trabalho e responsabilidades domésticas.

Buscar soluções para a saúde mental

Recentemente, mudanças na Norma Regulamentadora 1 (NR-1) entraram em vigor, exigindo que as empresas adotem medidas para reduzir riscos à saúde mental dos funcionários. Embora a mudança não ocorra de forma rápida, há esperança de que esse novo regulamento traga melhorias nesse cenário desafiador.