O que acontece com os bens apreendidos de criminosos, como carros de luxo e grandes quantias em dinheiro, no Rio de Janeiro? Muitos desses ativos ganham uma nova finalidade: financiar iniciativas sociais e apoiar as forças de segurança.
A História do Ouro Apreendido
Uma das histórias mais emblemáticas começou em 2014, quando a Polícia Federal apreendeu 20 quilos de ouro em barras em uma residência em Muriaé, Minas Gerais. O ouro pertencia ao traficante Antônio Hilário Ferreira, conhecido como Rabicó, que é apontado como um dos líderes do Comando Vermelho e está foragido desde 2019.
Após a apreensão, o material foi leiloado e os recursos arrecadados foram revertidos para a sociedade. Parte do dinheiro foi utilizada para equipar o centro de treinamento da Polícia Federal, onde foram adquiridos equipamentos de musculação e um tatame para um projeto social que oferece aulas de jiu-jitsu a jovens do Morro da Providência.
Veleiros e Formação de Marinheiros
Além do ouro e do dinheiro, bens de alto valor também são reaproveitados. Dois veleiros apreendidos durante operações da Polícia Federal, Receita Federal e Marinha agora servem para a formação de aspirantes na Escola Naval. Um dos veleiros, de luxo, foi apreendido na Marina da Glória por falta de documentação e pagamento de impostos, enquanto o outro foi interceptado em Angra dos Reis com fraude documental.
Atualmente, cerca de 600 alunos utilizam essas embarcações para aprender sobre navegação na Baía de Guanabara, o que é fundamental para o desenvolvimento prático de habilidades de leitura dos ventos e correntes marítimas.
Carros de Luxo e a Integração nas Forças de Segurança
Veículos de luxo também têm suas funções alteradas. Um SUV blindado que pertenceu a Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como 'Faraó dos Bitcoins', agora faz parte da frota da Polícia Federal no Aeroporto Internacional do Rio. Glaidson está preso desde 2021 e já foi condenado a mais de 19 anos por organização criminosa e corrupção ativa.
Segundo o Ministério da Justiça, a incorporação de veículos apreendidos às forças de segurança tem se intensificado nos últimos anos, contribuindo para operações e redução de custos operacionais. Essa mudança reflete a nova estratégia das autoridades, que agora buscam bloquear e recuperar bens, além de focar na prisão de criminosos.
A Nova Abordagem e seus Desafios
Victor Santos, secretário de Segurança Pública, enfatiza que "o dinheiro é o oxigênio do crime organizado", ressaltando a importância do bloqueio financeiro. Desde 2015, mais de R$ 673 milhões foram recuperados em ativos ilícitos no estado, e parte desses recursos é direcionada a projetos de segurança e recuperação de áreas dominadas por facções criminosas.
Entretanto, especialistas alertam que a apreensão de bens não é suficiente. Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que "não basta apreender bens se o controle territorial continuar nas mãos do crime". Apesar disso, essa nova política de destinação de bens representa uma mudança significativa, transformando ativos que antes se deterioravam em investimentos diretos em segurança e iniciativas para jovens em áreas vulneráveis.
