Em um marco inédito para a medicina brasileira, dois centros de transplante, um em São Paulo e outro em Juiz de Fora, realizaram um transplante renal com doação pareada. Essa técnica inovadora permite que doadores vivos, que são incompatíveis com seus respectivos receptores, troquem de lugar com outros doadores compatíveis.

Um novo horizonte para pacientes

A iniciativa foi liderada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e pela Santa Casa de Juiz de Fora, oferecendo uma nova alternativa para aqueles que possuem um amigo ou familiar disposto a doar, mas que não podem receber o rim devido a incompatibilidades sanguíneas ou imunológicas.

No Brasil, cerca de 45 mil pessoas estão à espera de um transplante renal, que representa 92% da lista de espera por órgãos. Em 2025, o país atingiu a marca de 6.697 transplantes renais, refletindo um crescimento de 5,9% em relação ao ano anterior.

Procedimento realizado com sucesso

As cirurgias ocorreram simultaneamente em ambas as instituições em maio, com todos os pacientes apresentando boa recuperação. Um doador de São Paulo foi a Juiz de Fora para realizar a doação ao receptor mineiro, enquanto o doador de Juiz de Fora foi para São Paulo para doar ao paciente paulista.

De acordo com Elias David Neto, diretor do Serviço de Transplante Renal do HC, a realização simultânea das cirurgias é uma medida de segurança que evita desistências de um dos doadores após a realização do procedimento do outro.

Como funciona a doação pareada

O transplante renal com doação pareada funciona como uma troca organizada: um paciente pode ter um doador que não é compatível, enquanto outro paciente pode estar na mesma situação. Com a troca, ambos conseguem um rim compatível, aumentando assim o número de transplantes realizados.

Embora essa prática seja comum em países como Estados Unidos e Japão, no Brasil ainda é considerada uma pesquisa, pois não existe regulamentação específica do Sistema Nacional de Transplantes para essa modalidade. Segundo David Neto, a falta de uma norma específica é o principal obstáculo para a regulamentação dessa prática.

Legislação e doação sem vínculo familiar

Atualmente, a legislação brasileira permite doações entre parentes até o quarto grau e cônjuges, enquanto doações entre pessoas sem vínculos familiares requerem autorização judicial. No caso do transplante pareado, o doador concorda em ajudar um desconhecido, sabendo que seu familiar ou amigo também será beneficiado.

Avanços e futuro do transplante renal pareado

A experiência entre São Paulo e Minas Gerais é a primeira envolvendo centros diferentes no Brasil. A integração entre hospitais permite compartilhar dados de potenciais doadores e receptores, facilitando a identificação de combinações compatíveis. Para isso, foi utilizada uma plataforma internacional que analisa características imunológicas e qualidade dos rins.

David Neto acredita que aumentar o número de centros participantes é essencial para o sucesso da estratégia a nível nacional. A expansão do transplante com doador vivo pode reduzir a dependência de órgãos de doadores falecidos, garantindo que esses sejam reservados para aqueles sem outras opções de transplante.

Os pacientes transplantados no procedimento pioneiro apresentaram ótima recuperação, com alta hospitalar em apenas cinco a sete dias. Especialistas afirmam que a barreira maior para a adoção dessa técnica no Brasil é regulatória, e não tecnológica, e que a incorporação da doação pareada pode beneficiar muitos pacientes em espera.