Os certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) emitidos por empresas do setor de proteínas, como Minerva e MBRF, passaram a oferecer retornos significativamente mais altos nas últimas semanas. De acordo com uma análise do Itaú BBA, os spreads do setor acumularam uma abertura média de cerca de 120 pontos-base desde meados de março, elevando os papéis a patamares superiores à mediana histórica.

Motivos para a Alta das Taxas

A elevação das taxas de CRAs reflete a crescente exigência de remuneração por parte dos investidores, que demonstram uma percepção de risco maior neste setor. Com isso, os CRAs de Minerva (BEEF3), BRF e Marfrig estão agora negociando com yields no quartil superior entre emissores semelhantes. Embora as empresas operem atualmente sob o nome MBRF Global Foods Company (MBRF3), os CRAs emitidos anteriormente continuam a ser negociados separadamente no mercado secundário.

Impactos do Ciclo do Gado

Um dos principais fatores que explicam essa alta nas taxas é a alteração no ciclo do gado no Brasil. Após anos de crescimento do rebanho, o país agora enfrenta uma oferta restrita de animais para abate, o que encarece a matéria-prima e pressiona as margens dos frigoríficos. Nos Estados Unidos, a situação é semelhante, com o rebanho próximo da mínima histórica e sem previsão de recuperação antes de 2028.

Desempenho das Empresas no Primeiro Trimestre

Os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2026 já refletem esse cenário adverso. A JBS, maior empresa de proteínas do mundo, reportou uma queda de aproximadamente 30% no EBITDA em comparação ao ano anterior, com uma margem que recuou de 7,8% para 5,2%, mesmo com uma receita recorde de US$ 21,6 bilhões. A MBRF viu seu EBITDA ajustado cair 3,2%, para R$ 3,1 bilhões, enquanto a Minerva foi a única a registrar crescimento, com uma alta de 16,2% no EBITDA, alcançando R$ 1,118 bilhão, embora suas margens também tenham diminuído, para 8,3%.

Desafios Comerciais na China e União Europeia

A política comercial da China adiciona uma nova camada de pressão. O país impôs ao Brasil uma cota de importação de carne bovina equivalente a 65% do volume exportado em 2025, com 43% dessa cota já utilizada até março. O Itaú BBA estima que o Brasil possa atingir o limite de cota ainda no terceiro trimestre deste ano. Além disso, a União Europeia exige que o Brasil demonstre conformidade com normas sobre uso de antimicrobianos até setembro de 2026, sob pena de novas restrições às exportações.

Perspectivas para o Setor de Aves

No entanto, apesar do quadro desafiador, o Itaú BBA ressalta que as empresas analisadas possuem um fator mitigante importante: uma posição de liquidez robusta e vencimentos de dívidas bem distribuídos, o que diminui o risco de pressão financeira imediata. No segmento de aves, o cenário é mais otimista, com a queda nos preços do milho e do farelo de soja ajudando a controlar os custos, enquanto a demanda externa permanece forte, refletida em um volume recorde de 4,8 milhões de toneladas de frango exportadas pelo Brasil em 2025.