No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas, o debate sobre a violência contra as mulheres ganha um novo e alarmante foco: os ataques direcionados ao rosto. Especialistas afirmam que essas agressões não se limitam a ferir, mas têm a intenção de marcar e desumanizar as vítimas, destruindo sua identidade.

Casos emblemáticos de violência

Um caso que ilustra essa realidade é o de Alana Anísio Rosa, de 20 anos, que sofreu uma tentativa de homicídio em sua casa, em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Mesmo sem qualquer vínculo com o agressor, ela se tornou alvo de um ataque brutal. Alana descreve o medo que sentia de relacionamentos abusivos, sem imaginar que poderia ser atacada por alguém desconhecido em um lugar que deveria ser seguro.

Após receber presentes anônimos de Luiz Felipe Sampaio, que frequentava a mesma academia, Alana tentou rejeitar suas investidas. Contudo, um mês e meio depois, o agressor invadiu sua casa armado e desferiu 30 golpes contra ela. A jovem sobreviveu após duas semanas em coma induzido, e a defesa busca a tipificação do caso como tentativa de feminicídio.

Subnotificação e suas consequências

A violência de gênero é marcada por uma alarmante subnotificação, dificultando a elaboração de políticas públicas. Um estudo realizado com 3.193 usuárias do SUS na Grande São Paulo revelou que 76% relataram ter sofrido algum tipo de violência, mas apenas 3,8% tinham registros formais de agressão em prontuários médicos, o que evidencia a invisibilidade dos casos.

As cicatrizes físicas, especialmente no rosto, trazem um lembrete constante do trauma. A médica Samira Khouri, de 27 anos, também vivenciou a brutalidade da violência. Ela foi agredida pelo namorado durante uma viagem, resultando em ferimentos que a fazem se sentir estranha ao se olhar no espelho. O agressor permanece preso e aguarda julgamento.

Ações de apoio e mudanças legislativas

Organizações civis têm se mobilizado para oferecer apoio às vítimas, incluindo assistência psicológica e cirurgias reparadoras. Um exemplo é o Instituto Um Novo Olhar, que oferece tratamentos gratuitos e apoio integral às mulheres afetadas por violência. Projetos como esses são essenciais para a recuperação e reintegração social das vítimas.

No campo legislativo, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados aprovou um projeto que torna mais severas as penas para agressores que causam lesões no rosto, pescoço ou partes íntimas. A proposta ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça antes de ser votada no plenário.

Referências internacionais e superação

Casos semelhantes ao redor do mundo têm gerado mobilizações e legislações específicas. Na Colômbia, um ataque com ácido resultou em mudanças legais. Na Inglaterra, a modelo Katie Piper fundou uma instituição para ajudar vítimas de agressões faciais. Na Índia, iniciativas buscam reintegrar mulheres sobreviventes ao mercado de trabalho.

Alana Anísio Rosa, após o ataque, se mudou e voltou a estudar, reafirmando sua identidade e objetivos. Ela destaca a importância de não deixar que a violência a invisibilize, buscando continuar sendo quem sempre foi. Sua força reflete a luta de muitas mulheres que enfrentam a violência de gênero e buscam a recuperação e a justiça.