O crédito desempenha um papel crucial no estímulo ao crescimento econômico a longo prazo, mas sua expansão desmedida pode trazer sérios riscos, especialmente quando se trata do endividamento das famílias. Diferentemente do crédito direcionado às empresas, que pode resultar em investimentos e aumento de produtividade, o crédito às famílias geralmente se traduz em consumo antecipado.

Consequências do endividamento

A forte elevação do endividamento familiar durante períodos de expansão de crédito pode provocar um crescimento temporário, mas frequentemente resulta em crises mais profundas. Quando a proporção da dívida das famílias em relação ao PIB aumenta, há uma tendência de crescimento reduzido e maior desemprego em períodos subsequentes.

Esse fenômeno de boom-bust é bem documentado: ciclos de expansão intensa são seguidos por desacelerações que ocorrem de 3 a 5 anos depois. Durante o boom, o aumento da oferta de crédito impulsiona o consumo, mas não é acompanhado por melhorias na produtividade ou na renda estável, resultando em uma demanda que cresce acima da capacidade produtiva.

Histórico brasileiro

O Brasil já enfrentou um ciclo semelhante entre 2003 e 2014, quando a razão da dívida das famílias em relação ao PIB subiu de 10% para 25%. Nesse período, o crédito às pessoas físicas cresceu quase cinco vezes, abrangendo financiamentos de veículos, crédito imobiliário e, em especial, o crédito consignado, que foi facilitado por legislações implementadas em 2003.

Os efeitos desse ciclo são bem conhecidos: em 2015 e 2016, o país atravessou uma recessão severa, com o PIB encolhendo por oito trimestres consecutivos e o consumo despencando. Dados do Banco Central mostram que os indivíduos que mais aumentaram sua razão de dívida em relação à renda durante o boom foram os que mais reduziram seus gastos na crise subsequente, especialmente aqueles com dívidas de juros elevados.

Ciclo atual de endividamento

O ciclo atual apresenta semelhanças preocupantes com o passado. Desde 2019, o saldo do crédito livre aumentou cerca de 75% em termos reais, com modalidades de crédito mais onerosas crescendo ainda mais rapidamente. A razão da dívida das famílias em relação ao PIB saltou de 25% para 35%, enquanto a razão dívida-renda alcançou 50%, o maior nível já registrado.

Programas recentes têm contribuído para essa expansão, como o Crédito do Trabalhador, destinado a trabalhadores do setor privado, que replica o modelo do consignado público que impulsionou o boom anterior. Adicionalmente, linhas específicas de crédito para motoristas de aplicativo e microempreendedores ampliam ainda mais o alcance dessa alavancagem.

Perspectivas futuras

O Brasil enfrenta o desafio de aumentar sua produtividade e poupança doméstica para garantir um crescimento sustentável a longo prazo. No entanto, a atual estratégia de financiar o consumo por meio do endividamento das famílias, especialmente as mais vulneráveis, pode gerar custos significativos no futuro.