A recente implementação da fiscalização eletrônica da tabela de frete dos caminhoneiros, determinada pelo governo para controlar os valores mínimos de transporte de carga, gerou uma acirrada disputa política no Congresso. A medida, que envolve interesses do agronegócio, da indústria e dos caminhoneiros, também acirrou os ânimos no STF (Supremo Tribunal Federal).
Implicações da Medida Provisória
A Medida Provisória (1.343/2026), editada em março pelo governo Lula, visa fortalecer a fiscalização da tabela de frete, uma demanda antiga dos caminhoneiros autônomos. Esta MP ajudou a evitar paralisações da categoria em um ano eleitoral, especialmente em meio ao aumento do preço do diesel, mas sua validade corre risco de expirar.
Caminhoneiros autônomos programam mobilizações em Brasília para pressionar os parlamentares a avançar na tramitação da MP. Publicada em 19 de março, a medida precisava ser aprovada pela Câmara e pelo Senado para se tornar lei, mas até agora não houve progresso significativo, e a comissão mista ainda não foi formada.
Desafios e Acusações
A validade inicial da MP foi prorrogada por mais 60 dias, mas a falta de deliberação gera preocupações. Líderes dos caminhoneiros acusam lobbies do agronegócio e da indústria de tentarem bloquear o avanço da proposta, visando evitar o aumento dos valores pagos aos transportadores autônomos.
Wallace Landim, presidente da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), afirmou: "Estão boicotando a MP para prejudicar os transportadores autônomos. Representamos 62% do transporte rodoviário de cargas no país. Se não houver avanço, vamos parar em todo o Brasil."
Objetivos da Tabela de Frete
A MP surgiu em resposta às demandas dos caminhoneiros por uma política que estabeleça um piso para o frete, implementada após a greve de 2018. A tabela visa garantir que os caminhoneiros não aceitem valores muito baixos, preservando a dignidade da profissão.
Os autônomos, com menos poder de negociação em comparação às grandes transportadoras, dependem da tabela para se proteger contra abusos de embarcadores. A MP também digitalizou a fiscalização, permitindo que a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) monitore operações que estejam abaixo dos valores mínimos estabelecidos.
Reações do Setor Empresarial
Entretanto, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estão mobilizando esforços no STF contra a MP, alegando que a fiscalização eletrônica cria uma indústria de multas a partir do cruzamento de dados. Com mais de 192 mil autuações registradas até março, a expectativa é que esse número chegue a 390 mil até o final do ano.
A FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), que representa a bancada ruralista, expressou preocupações com a metodologia da tabela e o modelo de fiscalização, pedindo uma revisão que considere as particularidades do setor. O deputado Pedro Lupion, presidente da FPA, destacou que a discussão visa melhorar a realidade do transporte, sem que haja um confronto entre os interesses do agro e dos caminhoneiros.
Perspectivas Futuras
O cenário atual levanta inquietações sobre as punições previstas na MP, que podem resultar em multas elevadas para reincidências. Essa situação gera receios sobre a insegurança jurídica e os custos logísticos. Wallace Landim alertou que o boicote por parte de tradings agrícolas, que têm priorizado grandes transportadoras, pode afetar ainda mais os caminhoneiros autônomos.
As mobilizações da categoria são vistas como uma forma de resistência e busca por reconhecimento em um cenário de incertezas.
