A maior parte das empresas que busca implementar a inteligência artificial (IA) comete o erro de simplesmente adaptar a nova tecnologia aos processos já existentes, ao invés de reestruturar seus negócios em torno dela. Essa é a análise de Evandro Armelin, diretor de Digital Technology da NTT Data, uma consultoria global em tecnologia.

Repensando Processos e Modelos de Negócio

Segundo Armelin, o verdadeiro desafio na adoção de IA não reside na escolha de ferramentas ou na contratação de fornecedores, que ele considera etapas relativamente simples. O grande obstáculo está na transformação organizacional necessária. "Você deve repensar seu negócio, seus processos e seu modelo operacional, integrando a IA como elemento central dessa reavaliação", explica.

Claudia Akemi Umemura, responsável pela área de talento e transformação da NTT Data, complementa essa visão ao apontar a diferença significativa entre as empresas no nível de adoção de IA. Ela ressalta que um erro comum é acreditar que a simples entrega da ferramenta será suficiente. "Não adianta impor por decreto que as pessoas devem utilizar soluções de IA", afirma.

Estratégias de Adoção e Formação de Multiplicadores

Uemura descreve um programa de adoção de IA promovido pela NTT Data, onde a seleção de líderes internos, denominados "campeões", foi realizada por meio de candidaturas voluntárias, em vez de indicações de gestores. Na primeira fase, 180 colaboradores participaram, com trilhas de aprendizado adaptadas aos diferentes perfis e o uso da própria IA para esclarecer dúvidas durante o processo.

Ela também alerta para a cobrança precoce de retorno sobre investimento (ROI) em IA. "Primeiro, é preciso desenvolver a capacidade organizacional, e só então medir o retorno", destaca. "É fundamental haver um momento certo para considerar o ROI como o principal indicador de sucesso da IA."

Atenção à Governança e à Segurança dos Dados

Umemura também alerta sobre o risco do que ela chama de "shadow AI", onde colaboradores utilizam ferramentas públicas de IA com dados corporativos sem supervisão. "Isso representa uma falha de segurança significativa, pois informações sensíveis da empresa estão sendo utilizadas em ambientes não controlados", diz. A solução seria estabelecer acordos corporativos que garantam a proteção dos dados, evitando seu uso em treinamentos de modelos públicos.

Setores em Destaque e o Futuro da IA

Quando questionado sobre quais setores estão avançando mais rapidamente na adoção de IA, Armelin aponta que bancos, empresas de telecomunicações e processadores de pagamento, que já operam em bases tecnológicas há décadas, possuem uma vantagem. Em contrapartida, indústrias pesadas e o varejo muitas vezes precisam começar do zero. Dentro de um mesmo setor, a cultura organizacional é um diferencial importante. "Empresas que reconhecem a relevância da IA e designam líderes para esse tema tendem a obter mais sucesso", comenta.

Olhando para o Futuro da IA

Para o futuro, Armelin menciona o desenvolvimento da IA agêntica, que permitirá sistemas operarem de forma autônoma com instruções menos estruturadas, sem depender de comandos específicos. "Esses sistemas poderão tomar decisões e implementar soluções que antes requeriam intervenção humana", explica.

Em relação ao impacto nos empregos, ele afirma que as mudanças são reais, mas não ocorrerão de forma imediata. "Ainda estamos longe de uma operação completamente autônoma. O papel do ser humano vai mudar, mas ele continuará presente", conclui. Além disso, Armelin reconhece que os desafios enfrentados por seus clientes também são enfrentados pela NTT Data, que recentemente criou um AI Office interno para facilitar essa transformação.