Na última terça-feira (23), o Ibovespa nadou contra a maré global. Enquanto a maior parte das bolsas mundiais — inclusive as norte-americanas — registrava perdas diante das dúvidas sobre o setor de tecnologia, o principal índice da Bolsa brasileira encerrou o dia em alta de 0,52%, aos 171.258,87 pontos. O movimento ganhou força na parte da tarde, acompanhando a recuperação das ações da Petrobras (PETR4) e o apoio de grandes bancos e papéis cíclicos.
No pano de fundo macroeconômico, a liquidação global de ações ligadas à tecnologia e à Inteligência Artificial (IA) abriu espaço para que o investidor voltasse os olhos para fora dos Estados Unidos. Com o índice Nasdaq em queda de 2%, cresceu a busca por diversificação de recursos. A grande pergunta que se impõe ao mercado é se esse movimento veio para ficar ou se foi apenas pontual.
O que derrubou as techs
A pressão sobre as empresas de tecnologia teve origem na queda das gigantes coreanas de chips Samsung Electronics e SK Hynix, ainda na madrugada de terça-feira, repercutindo nos EUA e na Europa. O gatilho foi uma reportagem da imprensa local apontando que a SK Hynix estaria reduzindo a expansão da produção de chips de memória voltados à IA para concentrar esforços na DRAM, uma tecnologia mais barata.
"Mais uma vez, surgem dúvidas sobre os gastos com infraestrutura de IA, especialmente porque algumas grandes empresas planejam vender ações para ajudar a financiar a expansão", avaliou David Morrison, analista sênior de mercado da Trade Nation. Segundo ele, só o tempo dirá se o cenário representa mais uma oportunidade de "comprar na baixa" ou o prenúncio de tempos piores.
A aposta na volta do capital estrangeiro
O debate sobre o Ibovespa ganhar fôlego com as ressalvas em torno das techs se intensifica porque a própria queda recente do índice — que chegou perto dos 200 mil pontos em meados de abril — foi atribuída a uma rotação de recursos internacionais. Parte do dinheiro deixou o Brasil rumo a bolsas asiáticas ligadas à tecnologia, como Taiwan e Coreia do Sul.
Para Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital, o fato de o investidor estrangeiro começar a ponderar com mais cautela o retorno dos investimentos bilionários em tecnologia e IA ajuda, sim, a atrair fluxo para o Brasil. O cenário também conta com a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, após sinais recentes do Federal Reserve (Fed) e dados ainda resilientes da economia americana.
Bertotti destaca o papel da Petrobras, que virou para o campo positivo mesmo com a queda do petróleo Brent para setembro, que recuou 0,93% e foi cotado a US$ 76,80 por barril. A estatal é uma das principais portas de entrada para o capital estrangeiro e, segundo o especialista, há uma perspectiva muito boa de resultados no segundo semestre, impulsionada por uma geração de caixa maior, mesmo com o petróleo em baixa.
Juros e o peso da política monetária
No campo doméstico, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central foi considerada mais dura do que o comunicado, mas ainda abre espaço para a leitura de que a Selic pode cair mais. Com as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) em queda, a renda variável se fortaleceu também pela expectativa de lucros corporativos maiores.
Nem todos os analistas, porém, enxergam fundamento na virada da Bolsa. Para Patrick Buss, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, não houve nenhum aspecto fundamentalista que justificasse a mudança de sinal do Ibovespa na terça. "Nos últimos dois meses, a Bolsa caiu por conta da guerra, mas esse cenário deu uma melhorada e por isso consegue dar uma estabilizada no nível próximo de 170 e 171 mil pontos", afirmou. Ele classifica como "naturais" as oscilações entre 168 mil e 172 mil pontos enquanto o mercado aguarda os desdobramentos entre Estados Unidos e Irã.
Fluxo estrangeiro ainda negativo
Os números reforçam a cautela: o fluxo do investidor estrangeiro está negativo em R$ 4,3 bilhões em junho, o que reduz o saldo positivo do ano para R$ 37,26 bilhões. Para Buss, um movimento mais consistente da Bolsa só virá quando houver entendimento firme sobre um acordo entre EUA e Irã que contribua para uma perspectiva mais positiva de juros.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, segue a mesma linha e lembra que, embora o petróleo esteja em queda, ainda existem dúvidas sobre a fragilidade do acordo firmado e seus efeitos no estreito de Ormuz. O presidente americano, Donald Trump, reafirmou que o fluxo na região está a todo vapor e que os EUA trabalham em um acordo justo com o Irã.
Já o diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avaliou que a ata do Copom introduziu explicitamente a possibilidade de diferentes momentos de pausa e retomada na calibração dos juros, sugerindo uma função de reação mais flexível e dependente dos dados. Mesmo considerando a ata mais dura do que o comunicado, ele mantém a projeção de corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de agosto.
Estrangeiros sem pressa
Apesar de o cenário parecer mais favorável e de os valuations estarem mais atrativos, o Itaú BBA ressalta que os estrangeiros não demonstram urgência para fazer aportes mais robustos no Brasil. Segundo os investidores ouvidos pelo banco, o principal entrave continua sendo a falta de catalisadores, somada aos riscos persistentes de queda nos lucros diante da incerteza macroeconômica — especialmente em torno da dinâmica fiscal e do ritmo de flexibilização monetária. O fenômeno aparece até em setores de qualidade, como financeiro e utilities (energia e saneamento), onde os preços estão descontados, mas a convicção para aumentar o risco permanece limitada.
Por outro lado, o posicionamento mais leve melhora a relação risco-retorno. "Apesar da visibilidade limitada de catalisadores, os investidores reconhecem cada vez mais que surpresas positivas poderiam ter um impacto maior do que novas notícias negativas", apontam os estrategistas do banco. Uma nova rotação de capital, saindo das techs em direção a mercados como o brasileiro, pode ser justamente essa surpresa positiva que o Ibovespa aguarda.
