O violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Carlos Márcio, faz sua estreia como poeta com o lançamento do livro intitulado 'Racismo, constante como o tempo'. A obra, que aborda as experiências de preconceito e a crueldade do racismo, será apresentada nesta segunda-feira (25/5), às 20h, no Auditório Vivaldi Moreira do Tribunal de Contas de Minas Gerais.
Um olhar poético sobre a realidade
Com 102 páginas, o livro mescla poesia e ensaio, tendo como tema central o racismo. Na dedicatória, Carlos Márcio destaca que a obra é direcionada a todos aqueles que enfrentam a discriminação, simbolizando as vivências que marcam a identidade negra. Ele reflete sobre como o reconhecimento da sua negritude foi uma construção social, instigada por amigos e experiências pessoais.
Experiências que inspiram a escrita
O autor relembra que, ao longo de sua trajetória acadêmica na UFMG, a presença de estudantes negros era escassa, o que acentuava a sensação de exclusão e a dificuldade de acesso a instrumentos musicais. Essas vivências se tornaram combustível para os poemas, que funcionam como um manifesto e um meio de cura pessoal, abordando o preconceito como um fenômeno estrutural e persistente.
Poemas que refletem a dor da violência
Entre os poemas, destacam-se 'Chega, meu pai' e '3 tiros', que homenageiam Durval Teófilo Filho, vítima de um crime de racismo. Além disso, 'O negro da semana' menciona figuras como Marielle Franco e George Floyd, enquanto 'A banalidade do mal' critica as atrocidades do rei Leopoldo II. A obra também aborda a invisibilidade de personagens negros na mídia e experiências diretas de discriminação enfrentadas pelo autor.
Críticas à hipocrisia do meio cultural
Carlos Márcio não se esquiva de criticar a hipocrisia presente nos ambientes artísticos. O poema 'Ecos de Chico Rei e Nise da Silveira' presta homenagem a figuras importantes para a cultura negra, como Aldo Bibiano e Ligia Amadio. O autor menciona que o texto ganhou um caráter premonitório após a demissão da regente Ligia, que expôs as dificuldades enfrentadas pela orquestra.
Reflexões sobre a memória e o luto
O ponto culminante do livro é o ensaio 'Devoção, memória e racismo estrutural: Caminhos de escuta', onde o autor critica a representação histórica na ópera 'Devoção'. Carlos traça paralelos entre os horrores da escravidão no Brasil e os crimes do Holocausto, enfatizando a falta de reconhecimento e luto pela escravidão, comparando-a com a memória coletiva dedicada ao Holocausto.
