O recente bloqueio do modelo de IA Fable 5, lançado pela Anthropic, pelos Estados Unidos, gerou preocupações sobre a dependência de tecnologias estrangeiras. A decisão, que impede o acesso ao modelo mesmo dentro do território americano, ocorreu na sexta-feira (12) devido a um suposto jailbreak.
Justificativas e Contestação
O governo dos EUA não apresentou muitos detalhes sobre a vulnerabilidade, mas a Anthropic contestou a medida, afirmando que o risco é limitado e que falhas semelhantes já existem em outros modelos. Mesmo assim, a empresa acatou a ordem e retirou o acesso ao Fable 5 de todos os usuários.
Fabro Steibel, diretor-executivo do ITS-Rio, comentou que essa situação revela um risco significativo para a continuidade do uso de tecnologias concentradas em empresas americanas. Ele ressalta que decisões políticas dos EUA podem afetar sistemas de outros países sem aviso prévio.
Impacto nas Relações Internacionais
A base legal utilizada para o bloqueio se fundamenta em controles de exportação, normalmente aplicados a hardware, mas que agora atingem diretamente software. Steibel enfatiza que não há garantias contratuais que possam sobrepor uma ordem de segurança nacional americana, transformando a relação entre usuários e fornecedores em uma questão de jurisdição.
Esse episódio se insere em uma disputa tecnológica maior entre os EUA e a China, onde a estratégia americana tem sido restringir o acesso da nação asiática a componentes de IA. Contudo, a China tem avançado em seu próprio desenvolvimento, criando tecnologias que desafiam as limitações impostas.
A Importância da Soberania Digital
Para o Brasil e a América Latina, o bloqueio é um forte argumento a favor da soberania digital. O governo brasileiro anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com investimentos de R$ 23 bilhões, mas especialistas consideram o valor insuficiente em comparação ao investimento privado dos EUA, que supera US$ 285 bilhões.
A situação é ainda mais complicada pelo fato de que muitos investimentos no plano brasileiro ainda dependem de tecnologia americana. O Chile, por sua vez, já lançou o Latam-GPT, um esforço para criar um modelo de linguagem nativo, destacando-se na região.
Alternativas e Desafios Futuros
Modelos de código aberto, como Llama e Mistral, emergem como alternativas para reduzir a dependência de APIs estrangeiras. No entanto, Steibel alerta que, embora esses modelos possam ser acessíveis, eles não necessariamente alcançam a sofisticação do Mythos. O projeto de cloud soberana do Brasil poderá facilitar o uso desses modelos em infraestrutura nacional.
Medon, especialista no assunto, ressalta que, apesar da utilidade dos modelos open source, a capacidade de cada país em desenvolver soluções a partir dessas bases é um fator crítico. Portanto, a construção de autonomia na escolha de tecnologias é essencial para garantir a soberania digital.
