No início de maio de 2026, a Cloudflare anunciou a demissão de cerca de 1.100 funcionários, representando 20% de sua força de trabalho, mesmo após reportar um crescimento de 34% na receita em relação ao ano anterior. Essa decisão reflete uma tendência observada também na Block, que reduziu seu quadro de 10 mil para menos de 6 mil colaboradores. Essas iniciativas vão além de simples cortes de custos e sinalizam mudanças profundas nas estruturas organizacionais.
Reconfiguração da Natureza das Firmas
A redução de postos de trabalho deve ser entendida como parte de um experimento sobre a nova natureza das empresas em um mundo onde tarefas cognitivas são cada vez mais desempenhadas por sistemas de inteligência artificial, com custo marginal zero. Assim, a questão central se transforma: como uma empresa deve operar quando a coordenação de suas atividades passa a ser realizada por inteligência não humana?
Desafios das Estruturas Tradicionais
Historicamente, as organizações modernas foram estruturadas com base em hierarquias, com diversas camadas de gerência e controle. No entanto, a ascensão da IA agêntica pode alterar essa dinâmica, tornando desnecessárias algumas dessas camadas intermediárias, que hoje exercem funções de coordenação e controle. O desafio é repensar a arquitetura corporativa, em vez de focar apenas na redução de custos.
Visões de Líderes do Setor
Os líderes da Block e da Cloudflare reconhecem a necessidade de questionar a estrutura hierárquica tradicional. Jack Dorsey e Roelof Botha, em um artigo, argumentam que a Block busca funcionar como uma inteligência, eliminando a necessidade de gerentes intermediários. Matthew Prince e Michelle Zatlyn, da Cloudflare, também enfatizam que suas decisões estão ligadas a como fornecer valor em um cenário de alta tecnologia.
Implicações para o Brasil
No Brasil, onde muitas empresas operam sob estruturas pesadas e regulamentações, a questão se torna ainda mais complexa. Conselhos de administração que veem a IA apenas como uma ferramenta de eficiência podem estar perdendo de vista a transformação radical que ela pode trazer para a arquitetura organizacional. É necessário repensar como essas mudanças podem gerar valor e quais novos riscos podem surgir.
Reflexões Finais
A discussão em torno da firma agêntica está apenas começando, e suas implicações podem ser profundas. A capacidade de uma empresa de se adaptar e redesenhar sua estrutura em resposta às novas tecnologias definirá seu futuro no mercado. A pergunta que permanece é: quanto da organização atual é necessária para criar valor real e quanto é legado de uma estrutura que já não se aplica na nova realidade?
