A General Motors anunciou nesta quarta-feira (24) um reforço de R$ 3,5 bilhões em suas operações no Brasil. Com o novo aporte, o plano de investimentos da montadora para o período entre 2024 e 2028 sobe para R$ 10,5 bilhões, um aumento de 50% em relação ao compromisso original de R$ 7 bilhões firmado há dois anos.
O anúncio foi entregue pessoalmente ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, pelo vice-presidente da GM América do Sul, Fabio Rua. O gesto ocorreu apenas um dia após o governo federal decidir renovar as cotas de importação para kits de peças CKD (totalmente desmontados) e SKD (semidesmontados), uma medida defendida pela chinesa BYD e fortemente contestada pelas montadoras tradicionais instaladas no país.
Críticas às cotas de importação
Em entrevista, Fabio Rua deixou claro o desconforto com a decisão do governo e afirmou que a GM está totalmente alinhada à posição da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), que defendia o fim das cotas. "Nós respeitamos a decisão do governo, mas temos uma posição 100% alinhada com a posição da Anfavea", declarou. Segundo ele, a indústria brasileira não se fortalece com medidas unilaterais voltadas a favorecer um único competidor, e admitiu que a situação "foi desconfortável".
O executivo alertou para o risco de o país estimular operações de simples montagem, com baixo conteúdo nacional, em detrimento de fabricantes que mantêm cadeias produtivas completas no Brasil. Para ele, é preciso evitar que novas rodadas de pedidos unilaterais de acesso a cotas avancem em favor de quem não produz com a mesma profundidade da GM.
O que o governo decidiu
A renovação foi aprovada na terça-feira (23) pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior, ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). A medida prorroga por mais seis meses as cotas que permitem importar kits de peças para veículos eletrificados sem o pagamento de Imposto de Importação, com alíquota zero para um total de até US$ 463 milhões. O benefício passa a valer a partir de 1º de julho de 2026, pelo prazo de seis meses. A Anfavea avalia recorrer à Justiça para questionar a medida, a depender do texto final da portaria que detalhar a cota.
Proposta inspirada no México
Durante a reunião com Alckmin, a GM apresentou uma proposta formal para encerrar as disputas recorrentes sobre cotas de importação. A ideia, segundo Rua, é criar um sistema semelhante ao adotado no México, no qual o direito de importar veículos ou componentes com benefícios tarifários fica vinculado ao volume efetivamente produzido no país. "O governo deveria adotar uma política de incentivo à produção local, por meio da qual, quanto maior a produção, maior a porcentagem de potenciais importações que podem ser trazidas para o país", afirmou. O executivo disse ter sentido grande receptividade do vice-presidente, que teria classificado a proposta, entregue por escrito, como "inteligente".
Para onde vai o dinheiro
De acordo com Fabio Rua, o novo aporte será usado para acelerar a modernização das fábricas e ampliar a eletrificação dos veículos, um plano que a empresa já vinha executando desde 2024. Cerca de metade do valor total já foi aplicada em novos modelos e na modernização industrial, com destaque para o desenvolvimento de veículos produzidos em Gravataí (RS), a renovação de modelos existentes e a robotização das linhas de produção.
O foco principal dos recursos serão as operações paulistas da companhia, que mantém plantas em São Caetano do Sul e São José dos Campos. A GM não detalhou quais modelos serão lançados nem quantos empregos serão gerados, mas afirmou que novos produtos já estão em desenvolvimento e devem ser anunciados nos próximos meses.
