A capacidade de lidar com dificuldades emocionais de forma equilibrada pode ter um impacto significativo na saúde e na longevidade, de acordo com um estudo publicado na revista BMJ Mental Health. A pesquisa, que acompanhou 10.569 adultos com média de idade de 67 anos, revelou que idosos com maior resiliência psicológica apresentaram menor risco de morte ao longo dos anos.
A pesquisa e seus resultados
O estudo fez parte do English Longitudinal Study of Ageing, um dos maiores levantamentos sobre envelhecimento globalmente. Os pesquisadores monitoraram os participantes por cerca de 12 anos, analisando como fatores emocionais poderiam afetar a saúde física e a mortalidade. Durante a investigação, foram avaliados aspectos como perseverança, propósito de vida, autoconfiança, calma em situações difíceis e capacidade de adaptação.
Os resultados mostraram que aqueles com melhores índices de resiliência tinham menor risco de morte por diversas causas. Esses dados se mantiveram relevantes mesmo após ajustes para variáveis como idade, doenças crônicas, estilo de vida, renda e sintomas depressivos.
Interpretações equivocadas
Embora alguns comentários nas redes sociais sugerissem que pessoas nascidas entre as décadas de 1950 e 1970 seriam emocionalmente mais fortes que os jovens de hoje, especialistas alertam que essa conclusão não pode ser tirada do estudo. O psicólogo Douglas Kawaguchi, da Faculdade Sírio-Libanês, destaca que a maioria dos participantes nasceu até 1960, o que não permite comparações geracionais precisas.
A psiquiatra Vanessa Greghi, do Instituto de Psiquiatria Paulista, reforça que a pesquisa teve como foco a relação entre resiliência emocional e saúde física, sem fazer afirmações sobre a superioridade emocional de uma geração sobre outra.
Compreendendo a resiliência emocional
A resiliência emocional refere-se à habilidade de enfrentar situações desafiadoras sem ser dominado por emoções como tristeza, medo ou ansiedade. Isso não implica em ausência de sentimentos negativos, mas sim na capacidade de reorganizar as emoções e manter o equilíbrio diante das adversidades. Kawaguchi explica que o termo mais apropriado atualmente é “regulação emocional”, pois não é possível controlar totalmente as emoções, mas é viável desenvolver a habilidade de regulá-las.
Estabilidade emocional na terceira idade
Os especialistas observam que o envelhecimento pode levar a uma maior maturidade emocional. Com o tempo, muitos aprendem a lidar melhor com conflitos e perdas. O psicólogo observa que, em condições normais, o cérebro tende a apresentar respostas emocionais mais equilibradas à medida que envelhece. Além disso, as boas relações interpessoais e um forte senso de propósito estão associados a melhores indicadores emocionais entre os idosos.
Desafios enfrentados pelas novas gerações
Embora o estudo não faça comparações diretas entre gerações, o contexto atual molda a maneira como os indivíduos lidam com a pressão emocional. Vanessa aponta que os jovens de hoje estão expostos a um fluxo constante de informações e comparações nas redes sociais, o que pode aumentar a ansiedade e a necessidade de validação. A psiquiatra acrescenta que o aumento nos diagnósticos psiquiátricos não significa que as novas gerações sejam mais frágeis, mas sim que há uma maior conscientização sobre saúde mental.
Fortalecendo a resiliência ao longo da vida
Apesar das diferenças entre as gerações, é possível desenvolver a capacidade de regular emoções em qualquer fase da vida. Kawaguchi compara esse processo ao fortalecimento muscular: experiências moderadas de desafio ajudam na adaptação emocional, enquanto situações extremas podem ter o efeito oposto. Hábitos como cultivar boas relações, diminuir estímulos digitais e buscar autoconhecimento podem favorecer uma regulação emocional saudável ao longo dos anos.
