Quando um terreiro é invadido, não se trata apenas de vandalismo, mas de uma ofensa a uma memória religiosa que o Brasil tem marginalizado ao longo da sua história. A simples palavra 'intolerância' não captura a profundidade desse problema.
Intolerância vs. Racismo Religioso
A intolerância pode ser aplicada a diversas situações, como o judeu ofendido ou o evangélico impedido de praticar sua fé. No entanto, quando se trata de religiões como a umbanda e o candomblé, o fenômeno adquire uma nova dimensão.
Enquanto a intolerância pode ser vista como uma briga entre crenças, as agressões aos terreiros têm um caráter mais cruel. Elas não se limitam à discordância, mas refletem uma hostilidade em relação a uma fé que está profundamente ligada à identidade da população negra, historicamente tratada como uma ameaça.
Histórico de Violência
Práticas afro-brasileiras foram rotuladas como feitiçaria e perigo público, levando à vigilância dos terreiros e à apreensão de objetos sagrados. Muitas vezes, as expressões de fé negra precisaram da autorização do Estado para existir, enquanto outras tradições religiosas são amplamente celebradas.
Assim, a expressão 'racismo religioso' se torna fundamental. Não é uma questão de modismo acadêmico, mas uma tentativa de nomear uma violência que persiste há muito tempo. Atacar um terreiro é agredir não apenas uma crença, mas uma religião que carrega a história da população negra no Brasil.
Dados Alarmantes
Os dados são preocupantes: de acordo com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, as violações por intolerância religiosa aumentaram de 1.184 em 2022 para 2.124 em 2023, e alcançaram 2.472 em 2024. O número de registros de umbanda e candomblé, 268, contrasta com apenas 88 casos relacionados a evangélicos e 53 a católicos.
Embora essa comparação tenha suas limitações, pois muitos casos não são denunciados, o recado é claro: há um alvo preferencial. A forma como esses atos são classificados influencia diretamente a percepção e a resposta da sociedade.
Reconhecimento e Ação
Reconhecer o racismo religioso não implica em criminalizar qualquer divergência de fé. O direito à liberdade religiosa permite a pregação e a defesa de crenças, mas o problema surge quando essa defesa se torna uma convocação à hostilidade.
O Supremo Tribunal Federal já reconheceu a vulnerabilidade das religiões afro-brasileiras, e a legislação a respeito do racismo agora inclui ataques religiosos. Contudo, essa lei precisa ser aplicada de forma efetiva, chegando às delegacias e ao sistema judicial.
A Ironia Brasileira
Há uma ironia na maneira como a cultura religiosa é tratada no Brasil. Enquanto feriados e procissões de religiões majoritárias são considerados parte da cultura nacional, oferendas e tradições afro-brasileiras ainda são vistas com desconfiança. Um Estado laico deve garantir que todas as expressões de fé sejam respeitadas, não apenas as da maioria.
O Brasil se vê como um país tolerante, mas muitas vezes essa tolerância é apenas um convite para que o outro exista, contanto que não incomode. Ao substituir 'intolerância religiosa' por 'racismo religioso', estamos apenas removendo uma venda que encobria a verdadeira natureza desse problema, que, na essência, é profundamente racial.
