Cidades em todo o Brasil começaram a disponibilizar medicamentos para o tratamento da obesidade, como semaglutida e tirzepatida, mesmo sem a incorporação oficial pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa prática levanta questões sobre acesso a novas tecnologias, prioridades em saúde e desigualdade.
Movimento em expansão
A adesão a esses medicamentos tem sido impulsionada por ações na cidade do Rio de Janeiro, que lidera o movimento. Outras localidades, como Urupês e Sorocaba, ambas em São Paulo, também implementaram programas para fornecer esses tratamentos. Cidades como Palmas, Cuiabá e Feira de Santana, além do estado de Santa Catarina, estão considerando a adoção semelhante.
Mercado global e custos
Esse movimento no Brasil ocorre em um contexto global onde o mercado de medicamentos para obesidade deve atingir US$ 150 bilhões até 2030, segundo a Morgan Stanley. Enquanto isso, capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Recife afirmam seguir apenas as diretrizes do governo federal, ressaltando a disparidade na implementação de políticas de saúde.
Desafios e lacunas
Entidades médicas alertam que a adoção isolada dessas práticas por alguns municípios evidencia uma lacuna na estratégia nacional de combate à obesidade, que afeta 26% dos adultos brasileiros, conforme dados da Vigitel. Fabio Trujilho, da Abeso, menciona que a disponibilização desses medicamentos pode melhorar o acesso ao tratamento, que deve ser individualizado e associado a mudanças de estilo de vida.
Avaliação federal em questão
No entanto, essa movimentação local ocorre antes da avaliação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias), que desde 2011 assessora o Ministério da Saúde. Em uma recomendação de agosto de 2025, o órgão optou por não incorporar a semaglutida ao SUS devido ao alto custo estimado em R$ 7 bilhões em cinco anos e à necessidade de priorizar intervenções como alimentação e atividade física.
Autonomia municipal e críticas
Apesar da ausência de diretrizes federais, estados e municípios têm a autonomia para implementar suas próprias políticas de saúde. A prefeitura do Rio, por exemplo, investiu R$ 42,4 milhões na compra de semaglutida, enquanto Urupês alocou cerca de R$ 200 mil para tirzepatida, justificando a decisão pela alta taxa de sobrepeso na população local.
Perspectivas e preocupações
Especialistas alertam que, embora a urgência no tratamento da obesidade seja reconhecida, a implementação precipitada de políticas pode distorcer prioridades a longo prazo. A vice-presidente da Abrasco, Reinaldo Guimarães, enfatiza a necessidade de que a distribuição de medicamentos esteja vinculada a uma linha de cuidado abrangente, enquanto Neuton Dornelas, da SBEM, defende uma política nacional unificada para abordar a questão.
