A imagem clássica de abelhas geralmente remete a colmeias em árvores, mas uma parte significativa dessas importantes polinizadoras vive de forma menos visível, sob a terra. O tema ganhou notoriedade após a descoberta de milhões de abelhas em um cemitério em Nova York, nos Estados Unidos, revelando um aspecto pouco conhecido do comportamento dessas espécies.

O Comportamento Ancestral das Abelhas

Conversando com Fabio Santos do Nascimento, professor do Departamento de Biologia da USP de Ribeirão Preto, entendemos que a nidificação subterrânea é a forma mais primitiva de construção de ninhos entre as abelhas. Segundo ele, esse comportamento remonta a milhões de anos, quando o ancestral das abelhas, semelhante a uma vespa, escavava túneis para depositar seus ovos.

Os ninhos construídos acima do solo surgiram posteriormente na evolução das abelhas. No Brasil, diversas espécies, especialmente entre as abelhas sem ferrão, ainda mantêm essa prática ancestral, com cerca de 50 delas nidificando no solo. As demais, cerca de 550 espécies, preferem cavidades em árvores ou estruturas aéreas para suas colônias.

A Estrutura dos Ninhos Subterrâneos

A arquitetura dos ninhos subterrâneos é diversa e varia conforme a espécie. As abelhas solitárias costumam criar galerias principais ligadas a pequenos túneis, onde a fêmea deposita seus ovos e o alimento necessário para as larvas. Em contraste, as abelhas sem ferrão que vivem no solo possuem estruturas muito mais complexas, com entradas principais conectadas a câmaras de cria e potes de mel e pólen.

Esses ninhos recebem proteção adicional com um material chamado batume, uma mistura de cera e barro, que isola o interior do ninho da umidade e das variações de temperatura do solo. Essa estratégia de construção foi aperfeiçoada ao longo de milhões de anos.

Desafios e Ameaças às Abelhas

Apesar de sua longa história evolutiva, as abelhas atualmente enfrentam pressões crescentes devido às ações humanas. A urbanização e a mecanização dos solos agrícolas têm reduzido os habitats disponíveis para a nidificação. Nascimento alerta que a perda de espaço é um problema sério para essas espécies.

Além de sua contribuição na produção de mel, as abelhas desempenham um papel crucial na polinização de plantas nativas e culturas agrícolas. Muitas espécies vegetais dependem especificamente de abelhas para sua reprodução, e a diminuição de suas populações pode impactar significativamente as cadeias ecológicas estabelecidas ao longo do tempo.

Um Sinal Positivo no Seu Quintal

O caso das abelhas encontradas no cemitério de Nova York ilustra como um ambiente adequado pode favorecer a nidificação. A abelha solitária Andrena regularis encontrou ali condições propícias, como vegetação abundante e baixa movimentação humana, o que possibilitou uma expansão populacional notável.

Assim, a presença de um ninho em áreas residenciais deve ser vista como um sinal positivo, indicando que o ambiente ainda suporta espécies nativas essenciais para o equilíbrio ecológico. A presença dessas abelhas sugere que o local continua a oferecer condições favoráveis à sobrevivência de importantes polinizadores, essenciais para a biodiversidade dos biomas brasileiros.