Imagine duas pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão no mesmo dia. Ambas apresentam uma alteração rara no gene ALK, que afeta a evolução do tumor. Para esse tipo de câncer, existe um tratamento em comprimido que pode ser administrado em casa, diferentemente da quimioterapia, que afeta também células saudáveis. No entanto, o acesso a esse tratamento varia drasticamente dependendo do sistema de saúde utilizado.
Acesso aos Exames
Um estudo realizado pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) revelou que a maioria dos médicos na rede privada (94%) tem acesso regular a exames que confirmam a alteração genética, enquanto apenas 44% dos médicos do SUS afirmam ter o mesmo acesso. Isso significa que muitos pacientes do SUS podem nunca descobrir que possuem essa alteração genética, perdendo assim a chance de receber o tratamento adequado.
Disponibilidade de Medicamentos
Após o diagnóstico, a situação se agrava. Apenas 10% dos médicos que atendem pelo SUS relataram ter acesso ao medicamento crizotinibe, enquanto 80% na rede privada informaram a disponibilidade do alectinibe, considerado o tratamento de referência. Embora o crizotinibe tenha sido incorporado ao SUS, a falta de recursos financeiros impede sua ampla utilização nos hospitais públicos.
Diferenciais na Sobrevida
Os dados do estudo mostram uma diferença alarmante na taxa de sobrevivência. Três anos após o diagnóstico, 87% dos pacientes da rede privada estavam vivos, comparados a 61% dos pacientes do SUS. Além disso, o tempo sem o câncer retornar foi, em média, três vezes maior na rede privada, com 40 meses contra 11 meses no SUS.
Desafios Econômicos do SUS
A desigualdade no acesso ao tratamento não é apenas uma falha do SUS. O Brasil enfrenta desafios na aprovação de novos medicamentos, que geralmente levam anos para serem liberados. A oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT, destaca que o principal obstáculo hoje é econômico, já que o sistema público precisa considerar o custo-benefício dos tratamentos, especialmente para grupos pequenos de pacientes.
Iniciativas do Governo
Em resposta a essas dificuldades, o Ministério da Saúde anunciou a disponibilização gradual de 23 novos medicamentos oncológicos de alto custo, incluindo opções para o câncer de pulmão, a partir de outubro. A meta é ampliar o acesso e reduzir a burocracia no fornecimento de medicamentos, beneficiando mais de 112 mil pacientes.
