Representantes de governos, universidades e empresas de toda a América Latina e do Caribe assinaram recentemente a chamada Declaração de Porto Alegre, documento que oficializa a criação do SemiCon-LAC. A nova estrutura funcionará como uma comunidade permanente de cooperação voltada ao desenvolvimento do ecossistema de semicondutores na região. A cerimônia foi realizada no Parque Científico e Tecnológico da PUCRS, o Tecnopuc, na capital gaúcha.
A articulação nasce como uma resposta direta à forte concentração da fabricação global de chips no Pacífico Leste, região que reúne Taiwan, Coreia do Sul e China. A proposta do bloco é somar capacidades científicas, técnicas e industriais dos países participantes para ampliar a competitividade das cadeias de suprimento locais e atrair investimentos de grande porte. Para conduzir os primeiros passos da iniciativa, o Tecnopuc foi escolhido para ocupar o mandato inicial da Secretaria Executiva da comunidade.
Um setor que movimenta centenas de bilhões
O acordo chega em um momento de expansão acelerada da indústria. Segundo dados da consultoria Gartner referentes a 2025, a receita mundial de semicondutores alcançou US$ 793 bilhões, alta de 21% em relação ao ano anterior. Os chips destinados a aplicações de inteligência artificial já representam quase um terço de todas as vendas globais do segmento.
As projeções para os próximos anos reforçam essa tendência. A estimativa é de que os gastos globais com infraestrutura de inteligência artificial superem US$ 1,3 trilhão em 2026. Já os semicondutores voltados à IA devem responder por mais da metade das vendas totais do setor até 2029, o que ajuda a explicar a corrida internacional por autonomia produtiva nessa área estratégica.
Uma janela geopolítica para a região
Adão Villaverde, professor da Escola Politécnica da PUCRS e chair do SemiCon-LAC 2026, definiu o momento como uma oportunidade geopolítica. Para ele, o evento no Brasil ocorre justamente em um período de reorganização global voltado a descentralizar a produção de chips hoje concentrada no Pacífico Leste. Villaverde lembrou que se trata de um setor que exige capital humano, investimentos, parcerias e diálogo constante entre empresários, especialistas, gestores públicos e agências de financiamento.
O professor afirmou ainda que o SemiCon-LAC se apresenta como uma articulação entre os setores público e privado para transferência de conhecimento e geração de valor, com a meta de consolidar o Rio Grande do Sul como um polo de semicondutores no país, na América Latina e no Caribe. Entre os objetivos citados também está o fortalecimento da soberania científica, técnica, comercial e geopolítica da região.
Os quatro eixos da nova comunidade
A Declaração de Porto Alegre organiza a atuação do SemiCon-LAC em quatro frentes principais. A primeira é a cooperação regional e internacional, com a criação de um mecanismo permanente de diálogo entre governos, universidades, centros de pesquisa e empresas, aberto a parcerias com instituições de qualquer país. A segunda trata de autonomia e resiliência, com o compromisso de estimular a independência tecnológica regional para reduzir riscos de desabastecimento e reforçar a segurança nacional dos membros.
O terceiro eixo é o fortalecimento de capacidades, com integração entre academia e indústria para acelerar a pesquisa aplicada, a inovação e a formação de talentos qualificados. Por fim, o quarto eixo prevê um mecanismo permanente de gestão, com uma estrutura administrativa contínua liderada pelo Tecnopuc na primeira secretaria executiva, responsável por coordenar a implementação da agenda de cooperação mesmo após o encerramento do simpósio. A assinatura ocorreu durante o SemiCon-LAC 2026, que reuniu representantes de governos, da academia e da indústria para debater o lugar da América Latina e do Caribe na cadeia global de semicondutores.
